sábado, 28 de março de 2009

Sobre a esperança


Por Ricardo Gondim


Esperança significa o quê? De verdade, sem chavão, qual a definição de esperança? É difícil falar sobre esta verdade da teologia.


Nietzsche espezinhou a esperança. Dizia mais ou menos o seguinte: “ter esperança é postergar o dever que exige ação para o agora”. Nesse sentido, concordo com ele. Eu também não desejo uma "virtude" que camufle a covardia. E com a minha idade, já não creio nesse tipo de esperança.


Também concordo com Norberto Bobbio sobre o andamento da História (assim, com maiúscula). Em uma entrevista, Bobbio disse que depois de testemunhar duas guerras mundiais, achava-se incapaz de perceber no futuro próximo, algum "sinal visível de que a História se encaminhasse para uma plenitude feliz". O entrevistador insistiu: “Em que é que o senhor deposita suas esperanças, professor?”. A resposta veio cândida: “Não tenho esperança alguma. Como leigo, vivo em um mundo onde a dimensão da esperança é desconhecida”.
Também não tenho esperança de que a indústria bélica seja desmontada para que se fabriquem tratores, arados, foices e enxadas. Os gastos com armamentos permanecerão altos. O teatro de guerra pode até deixar de requerer porta-aviões monumentais, ogivas nucleares com poder letal de acabar com o planeta várias vezes. Os estrategistas vão transferir suas atenções para as favelas estreitas e sujas do Oriente Médio. Mas os orçamentos militares vão consumir muito dinheiro.


Também não tenho esperança de que haverá melhor distribuição de riqueza entre as nações. Por mais que cresça, o bolo da prosperidade nunca será dividido solidariamente. A geopolítica colonialista, que desgraçou com a América Latina e África, permanecerá intocada.
Também não tenho esperança de que a brecha tecnológica, que separa as nações desenvolvidas das atrasadas, se estreitará. Pelo contrário, as grandes potências continuarão colecionando Prêmios Nobel, investindo em pesquisa genética e fabricando robôs de altíssima precisão. E os pobres respirando o ar fétido dos esgotos a céu aberto e bebendo água com coliformes fecais; para morrerem cedo.


Vaclav Havel defininiu esperança como “ânimo de lutar não porque vai dar certo, mas porque vale a pena”. E Chico Buarque de Holanda acertou no alvo quando traduziu do espanhol, uma das músicas da ópera “Don Quixote de La Mancha”:


SonharMais um sonho impossívelLutarQuando é fácil cederVencerO inimigo invencívelNegarQuando a regra é venderSofrerA tortura implacávelRomperA incabível prisãoVoarNum limite improvávelTocarO inacessível chãoÉ minha lei, é minha questãoVirar esse mundoCravar esse chãoNão me importa saberSe é terrível demaisQuantas guerras terei que vencerPor um pouco de pazE amanhã, se esse chão que eu beijeiFor meu leito e perdãoVou saber que valeu delirarE morrer de paixãoE assim, seja lá como forVai ter fim a infinita afliçãoE o mundo vai ver uma florBrotar do impossível chão.Minha esperança também se parece com o pensamento do rabino Jonathan Sacks. Não aceito “o status quo como vontade Divina”. Minha esperança é uma espécie de “fé, na qual Deus convida os seres humanos a se tornarem seus parceiros no trabalho da redenção, a construírem uma sociedade baseada na justiça e por todos percebida como tal“.


Portanto, a única esperança que acolho, resiste, semeia, fermenta, bate de frente com o sistema, advoga o direito das crianças, socorre os idosos, visita os encarcerados e devolve visão aos cegos.

Soli Deo Gloria.

Um comentário:

  1. Gosto muito das reflexões do pastor Ricardo Gondim. E parabéns pelo blog.

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